Nilton C. Tristão
Cientista Político
Quando Manuel Bandeira publicou em 1930: “Vou-me embora para Pasárgada, lá sou amigo do rei...”, não imaginava que nos idos de 2020 o seu poema se encontraria em local diametralmente oposto aos encantos e devaneios desse mundo idílio. Porque nesse período, o monarca do extremismo ofertava ao país tão somente os pesadelos e dores postos nos sete ciclos do inferno de Dante.
Avançando no tempo, no dia 6 de julho de 2023, em reunião do Partido Liberal (PL) para debater o posicionamento da bancada referente à votação da Reforma Tributária, o Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, foi rudemente interpelado por Jair e seus asseclas, aliás, obrigando o chefe do executivo paulista a deixar o local com auxílio de seguranças. Todavia, qual teria sido o crime perpetrado por Tarcísio? Ousou utilizar o pensamento lógico e racional dentro de um ambiente dominado pelo espírito da idolatria e destemperança. Como resultante, agindo de maneira intencional ou involuntária, o ex-presidente alçou Freitas à condição de provável líder dos segmentos de centro-direita e outras correntes moderadoras inseridas no seio da sociedade.
Tal comportamento criterioso e civilizatório de Tarcísio, diferentemente das manifestações exóticas de Romeu Zema, possibilitará que o conservadorismo adquira uma alternativa de poder enraizada na observância irrestrita às liberdades individuais e direitos constitucionais. Portanto, nesse contexto, o bolsonarismo não disputará o escrutínio porvindouro revestido da alcunha de único e legítimo movimento ideológico de direita. Pois o “tarcisismo” evidenciará o potencial para reivindicar a inclusão de repertórios relacionados às mudanças estruturais das cidades sob a ótica do conservadorismo, contrariamente aos bolsonaristas, presos às narrativas circunscritas aos campos difusos da moral e costumes.
Portanto, Tarcísio terá a oportunidade de oferecer caminhos que não percorram as trilhas do ódio, rancor e preconceito. Em outros termos, representará uma porta de saída ao antiesquerdismo que deseja abandonar o universo dos delírios psicóticos. Desta feita, as eleições a prefeitos e vereadores de 2024 não se converterão em passeio desprovido de turbulências àqueles que optarão por incorporar a imagem de Jair Bolsonaro à estética de sua postulação, inclusive, abrindo mão da própria história pregressa. Importante salientar que provavelmente o Brasil ostentará indicadores econômicos positivos que promoverão o incremento na sensação de bem-estar entre os cidadãos, situação que amenizará os efeitos do histrionismo enfurecido.
Em síntese, os impactos do surgimento do “tarcisismo” dentro do espectro nacional seriam: 1) perspectiva de que as agremiações identificadas com o conservadorismo possam assumir com maior desenvoltura bandeiras moderadas e efetivas; 2) recobrar a figura do adversário, dando fim aos embates fundamentados nas contendas entre inimigos inconciliáveis; 3) retirar a proeminência das pautas de costumes validadas na negação dos diferentes; 4) desenvolver ações sob a égide do relacionamento conciliatório entre instituições; 5) estabelecer os parâmetros de uma militância de direita que seja orientada no respeito e fortalecimento do Estado Democrático de Direito.
Logo, Tarcísio de Freitas será capaz de romper com os alinhamentos e abordagens reducionistas para introduzir propostas no âmbito da cultura, educação e desenvolvimento econômico dissociadas de princípios negacionistas.
Ou seja, não há evidências de que o bolsonarismo se fortalecerá em 2024; assim, caso os candidatos do Partido Liberal (PL) mantenham a cartilha legada do pleito anterior, ficarão isolados, pregando postulados superados perante uma nova conjuntura política.
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